segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O ÚLTIMO PRESSÁGIO VEM EM FORMA DE SONHO


Um garoto de cinco anos vestido de kilt, agasalho de lã, boné de pano está agchado no pico de um vale, agarrado nos próprios joelhos, com os dedos delicados entrelaçados. O vale é impecavelmente verde, bem como a paisagem que o garoto contempla: montes libertos de qualquer ação humana, crivados por riachos que desenham continentes ao longo das superfícies.


Céu fechado, nuvens carregadas desde o cinza esbranquiçado até o azul claustrofóbico da tempestade. E Deus brinca com os dedos leves, levando de um lado para o outro as nuvens e pincelando cada uma de uma cor, ao seu belprazer. Diante da ubiquidade de Deus, da potência dos céus, da grandiloquencia dos grandes vales imaculados, o garoto morde os lábios tremendo de frio.


Por exagero irresponsável, duas nuvens pesadas se chocam e lançam ao solo do oriente cem mil megatons de calor. O vale verde se trona auri-rubro, o fogo avança imponentemente. O estanho da fumaça que sobe e ganha a atmosfera, a imprecisão dos traços das chamas que se confundem com o caos intrínseco das nuvens divinais: desencaixe deslumbrante, fazendo da paisagem um paraíso heterogêneo, aquarela esfumaçada, colorida de cores de limites indiscerníveis.

Mas o garoto teme a sofreguidão do fogo e assim que atenta à chama que vem, ergue-se e corre rumo ao ocidente para salvar seu corpo minúsculo da oxidação dilacerante. E corre, como jamais correu antes: ganha espaço a cada passo como um lince de andar gigante. Desce o vale, conta coma gravidade para desbancar tão rápido quanto possa para a área mais segura: distante da avidez ígnea. O fogo tem fome, e as pernas curtas do garoto não são suficientes para ganhar espaço ante o incêndio crescente.

Do ocidente de repente desmorona do núcleo de uma nuvem uma precipitação alucinante que, no seu primeiro segundo apenas, fez desmoronar todo o horizonte daquela direção. O garoto estava encurralado entre duas das maravilhas divinas e via sua vida um lapso, uma falha da Criação.

Entreabre-se então, bem à sua frente, entre os pés de dois montes, uma ravina monumental produzindo um estrondo só comparado ao clamor da pangeia. Sobre a ravina, os montes circundantes fizeram-lhe teto, formando assim uma gruta forte e espaçosa. Para ali então correu o garoto, como o náufrago que se apega a um sólido qualquer. A gruta era totalmente escura, mas o garoto não a temia, pois dali não via a pressa da chama nem o progresso da tempestade: via somente nada à sua frente.

Estranho é que também parou de ouvir todo o estardalhaço que havia lá fora, aliás não ouvia nada senão seus passos imprecisos por conta da arrogância do breu. Tornou sua cabeça na direção em que tinha adentrado e começou a temer novamente, pois não enxergava luz qualquer nem portal por onde teria passado. Mordendo os lábios não mais de frio, mas de terror, indagou ao léo com sua vozinha tépida:

- Tem alguém aí?

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