
Um garoto de cinco anos vestido de kilt, agasalho de lã, boné de pano está agchado no pico de um vale, agarrado nos próprios joelhos, com os dedos delicados entrelaçados. O vale é impecavelmente verde, bem como a paisagem que o garoto contempla: montes libertos de qualquer ação humana, crivados por riachos que desenham continentes ao longo das superfícies.
Céu fechado, nuvens carregadas desde o cinza esbranquiçado até o azul claustrofóbico da tempestade. E Deus brinca com os dedos leves, levando de um lado para o outro as nuvens e pincelando cada uma de uma cor, ao seu belprazer. Diante da ubiquidade de Deus, da potência dos céus, da grandiloquencia dos grandes vales imaculados, o garoto morde os lábios tremendo de frio.
Por exagero irresponsável, duas nuvens pesadas se chocam e lançam ao solo do oriente cem mil megatons de calor. O vale verde se trona auri-rubro, o fogo avança imponentemente. O estanho da fumaça que sobe e ganha a atmosfera, a imprecisão dos traços das chamas que se confundem com o caos intrínseco das nuvens divinais: desencaixe deslumbrante, fazendo da paisagem um paraíso heterogêneo, aquarela esfumaçada, colorida de cores de limites indiscerníveis.
Mas o garoto teme a sofreguidão do fogo e assim que atenta à chama que vem, ergue-se e corre rumo ao ocidente para salvar seu corpo minúsculo da oxidação dilacerante. E corre, como jamais correu antes: ganha espaço a cada passo como um lince de andar gigante. Desce o vale, conta coma gravidade para desbancar tão rápido quanto possa para a área mais segura: distante da avidez ígnea. O fogo tem fome, e as pernas curtas do garoto não são suficientes para ganhar espaço ante o incêndio crescente.
Do ocidente de repente desmorona do núcleo de uma nuvem uma precipitação alucinante que, no seu primeiro segundo apenas, fez desmoronar todo o horizonte daquela direção. O garoto estava encurralado entre duas das maravilhas divinas e via sua vida um lapso, uma falha da Criação.
Entreabre-se então, bem à sua frente, entre os pés de dois montes, uma ravina monumental produzindo um estrondo só comparado ao clamor da pangeia. Sobre a ravina, os montes circundantes fizeram-lhe teto, formando assim uma gruta forte e espaçosa. Para ali então correu o garoto, como o náufrago que se apega a um sólido qualquer. A gruta era totalmente escura, mas o garoto não a temia, pois dali não via a pressa da chama nem o progresso da tempestade: via somente nada à sua frente.
Estranho é que também parou de ouvir todo o estardalhaço que havia lá fora, aliás não ouvia nada senão seus passos imprecisos por conta da arrogância do breu. Tornou sua cabeça na direção em que tinha adentrado e começou a temer novamente, pois não enxergava luz qualquer nem portal por onde teria passado. Mordendo os lábios não mais de frio, mas de terror, indagou ao léo com sua vozinha tépida:
- Tem alguém aí?
