segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

SEGUNDO ÚLTIMO

As plantas dos pés no parapeito do oitavo andar. Se pra mim existisse o certo, desatino tal não seria razoável. Abro os braços e me apoio somente no vidro da janela, que, não obstante sua fragilidade, ainda me sustenta em pé. O sol que incandesce meu corpo, me impele que eu feche os olhos: eu não consigo enxergar a altura que há entre o ser e o nada. Os motivos não sei mais, a única coisa que me toma a consciência é o limite - se houver um limite - entre covardia e coragem quando se encontra no turbilhão do insuportável. Estranho... não vejo carros, transeuntes nem bombeiros mobilizados por minha causa; nenhum braço ou palavra próxima que me puxe pro interior do prédio, o telefone não está tocando nesse momento, o vento não me empurra pra direção contrária... o mundo me dá permissão. Ora, pra quê qualquer um pararia pra ver essa cena minha? Eu não sou um espetáculo: eu sou a tragédia em si; o lamento puro, sem motivo; a dor sem perspectiva de prazer. Se de outra forma fosse, não teria porquê planejar um fim. Assim, se eu fosse uma planta procuraria uma serra, se eu tivesse asas me afogaria numa chama, se fosse um peixe, me enterraria na argila. Como mero imberbe, portanto, num impulso sem esforço, resolvo alçar voo.

O berro silente, foi sublimado pelo calor de lembranças que, antes tidas como feitos determinados, ganham agora um propósito. Indiferença, desepero, angústia, aspiração de dor, dor, incômodo, conformidade, satisfação, felicidade, plenitude... parcelas no tempo que escolhi ser curto. Haverá asas pro arrependido? Não quero mais que... não desejo pra ninguém nenhuma... espero que no futuro... Ora! Vontade alguma faz efeito, desejo algum será satsfeito. A única coisa que restará é o meu segundo de história no meu milímetro de existência. Ainda assim restará não pra mim, mas para aqueles que atrasaram o passo e não tiveram tempo de me dar o braço nem palavra próxima; pra quem não ligou naquele momento pro meu telefone; pros transeuntes que terão de lidar com o vinho do meu sangue; pr'aqueles que se sentirem culpados ou distantes; pros ausentes constantes; pros constantes ausentes... Covardia foi o preço da coragem de plantar os pés no parapeito. Às vezes eu penso que não haverá mais do que...

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