quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O AVIÃO


Faziam, então, a sesta bem feita avô e neto ao meio-dia daquele dia comum, abrigados pelo casebre muito estreito, mas bem ventilado, localizado à meia altura do vale circuscrito pela cerca tosca de arame farpado e mastros de eucalipto. Tão rústico era o abrigo que, visto à distância metido no verde imaculado da relva, tocado por um riacho turvo que ziguezagueava vale abaixo, duvidava-se se aquilo era mesmo obra do homem ou detalhe da construção de Deus.

Porém, numa certa altura do sono, um estrondo despertou as duas criaturas da maneira mais rude, de modo que o avô saltou alerta da cama de palha buscando abrigar o neto no arco do corpo, temendo o tremor terrível que sofria a estrutura do casebre - até então tido como certo, como o mais sólido que o próprio chão que carrega o mundo. Àquela altura o neto já se agarrava aos próprios joelhos sentado no canto mais escuro do recinto, mas sairia dali no mesmo segundo puxado bruscamente por seu avô desnorteado, inundado de preocupação paternal. Carregando o garoto contra o peito e protegendo seu ouvido com sua mão macilenta, o avô precipitou-se para o exterior do abrigo, não com medo do estrondo que fazia fremir o universo, mas com sede de vingar seu sono interrompido.

A surpresa - que precede o medo -veio no momento exato em que o avô pôs os pés na relva e mirou seus olhos de águia para todos os horizontes possíveis sem avistar, porém, nenhuma matéria capaz de emitir sonido tão grandioso. Descansou seu neto no chão para averiguar com maior precisão os espaços que o cercavam, mas de fato não conseguia encontrar nada que justificasse o terror. Ouvia apenas um resquício do estrondo que ia desaparecendo devagar até sumir por completo e devolver à roça o silêncio que lhe é banal. O neto enxergou no olhar do avô o sentimento de medo ao qual pensava que o velho fosse imune, e agarrou-se firmemente às suas pernas esguias.

O avô retornou ao casebre frustrado por não ser capaz de criar palavra que alentasse o neto. No quarto pequeno, onde momentos antes dormiam avô e neto sono tão seguro, estava estilhaçada no assoalho a imagem da finada avó que por muitos anos ocupava posição privilegiada na prateleira dos parentes queridos. O velho amarrou o pranto que já lhe escapava nos olhos e pegou com ternura o maior caco que havia e que continha somente - como se tivesse sido precisamente recortado - o rosto da velha. O busto e a paisagem ao fundo - que completavam a imagem original - estavam pulverizados em cacos mínimos e indecifráveis. A coragem do velho conheceu naquele momento seu próprio limite: as pernas ficaram fracas, o coração recebeu cachoeiras de adrenalina, os olhos se arregalaram involuntariamente. Mas todo esse temor não podia vir à tona para o bem do neto, que não entendia bem porque o avô tremia tanto com aquele pedaço de imagem à mão. O velho pegou o garoto no colo, tomou sua garrucha de cano largo da parede em que ficava pendurada e foi se sentar na velha cadeira de balanço no alpendre do casebre: iria ficar à espreita, e dessa vez se anteciparia ao maldito inexplicável que lhe tirara o sono e lhe embutira o terror.

Tanto foi a demora para que se repetisse o sonido, que, após mais de hora de vigília, tanto avô quanto neto retornaram à terra do onírico. Lá, o velho reencontrou -se com sua finada velha, mas esse encontro, com o qual com freqüência sonhava quando acordado, não contava com o contexto angelical que esperava. Não havia nada no universo além das duas figuras: não havia paisagem, céu ou chão, tudo era impecavelmente negro, exceto a velha que esbanjava uma luz que não vinha de lugar algum senão do seu próprio corpo. Havia ainda um odor estranho que parecia vir da velha, mas que permeava todo o espaço com uma violência implacável: o cheiro da morte que ele jamais havia sentido, mas que a velha já se mostrava acostumada. Apesar do tetrismo da cena, o velho não continha um sorriso aliviado na sua boca sem dentes, pois via à sua frente novamente a figura que amara durante todos os anos de vida.


De repente uma força anterior começou a impulsionar o velho na direção da velha e ele deixava-se levar sem intentar qualquer resistência, enquanto ela aguardava absolutamente impassível a sua aproximação. A três dedos do rosto da velha, o velho podia ver agora com clareza sua absoluta inexpressão: traços fundos, aspecto cadavérico, atmosfera luciférica. Ainda assim os olhos do velho brilhavam com lágrimas satisfeitas pelo momento do sonhado reencontro. Após um longo e nocivo silêncio, a velha precipitou-se sobre os ombros do velho tentando alcançar-lhe o ouvido. "Fala velha! fala tudo que quiser! fala!", torcia consigo o velho ao perceber o esforço descomunal que a velha fazia para descolar os lábios e emitir palavra qualquer. "Fala! eu quero que fale!", o velho já sentia o gelo da boca da velha alcançar-lhe o ouvido, sentia emocionado seu aspecto murcho e sem calor. "Fala!", lágirmas desesperadas corriam-lhe face abaixo, pois sentia que a velha queria lhe dizer alguma palavra, que se esforçava para tanto, e no entanto um impedimento superior lhe castrava qualquer possbilidade. Após certo tempo, quando enfim conseguiu descolar os lábios, o que saiu da sua boca não foi alguma palavra doce de amor ou conselho sábio da eternidade, mas um estrondo, o mesmo estrondo que havia antes tirado o velho da sua sesta, tirava-lha naquele momento a chance de ouvir a velha. Despertou num salto de sua cadeira de balanço puxando pelo braço seu neto que também já havia acordado e berrava desesperado, apavorado pelo barulho horrendo. O velho tornou sua garrucha para o norte e afligiu-se ao perceber que na verdade não mirava alvo algum. Procurou ao redor do abrigo qualquer coisa de plausível sem encontrar nada de incomum; no ceú havia apenas um risco retilíneo de uma fumaça branca que o dividia em duas metades perfeitas . E o barulho já esvaía-se mais uma vez com seu mistério, deixando naquela roça e naqueles dois seres seu terror.

O avô olhou para o neto e por um momento passou pela sua cabeça - por completo desespero - indagar ao garoto que diabos era aquilo. Lembrou-se da imagem da velha e correu para o cômodo onde os cacos desencaixados se dispunham no chão. Tremeu-se inteiro ao perceber que não havia mais a imagem perfeita do rosto da velha, mas que com o segundo tremor restara somente a sua fronte: seus olhinhos miúdos pareciam encarar penetrantemente o velho que segurava choroso o caco da imagem.

O velho não via outra saída para por termo ao temor do neto. Carregou o garoto para a estrada de chão que passava rente ao cercado da roça e, na primeira carroça que passou para a cidade, encomendou seu neto, dando-lhe o último afago, a última benção, o último beijo. O neto não pensou em resistir, pois sabia que o avô nunca deixou de fazer o que há no mundo de mais sábio. Quanto ao velho, este retornou à sua garrucha sentado na sua cadeira de balanço à beira do casebre, disposto a vingar-se do inexplicado no próximo estrondo. Passaria, então, o resto dos seus dias a conjeturar verdades.