
O avô retornou ao casebre frustrado por não ser capaz de criar palavra que alentasse o neto. No quarto pequeno, onde momentos antes dormiam avô e neto sono tão seguro, estava estilhaçada no assoalho a imagem da finada avó que por muitos anos ocupava posição privilegiada na prateleira dos parentes queridos. O velho amarrou o pranto que já lhe escapava nos olhos e pegou com ternura o maior caco que havia e que continha somente - como se tivesse sido precisamente recortado - o rosto da velha. O busto e a paisagem ao fundo - que completavam a imagem original - estavam pulverizados em cacos mínimos e indecifráveis. A coragem do velho conheceu naquele momento seu próprio limite: as pernas ficaram fracas, o coração recebeu cachoeiras de adrenalina, os olhos se arregalaram involuntariamente. Mas todo esse temor não podia vir à tona para o bem do neto, que não entendia bem porque o avô tremia tanto com aquele pedaço de imagem à mão. O velho pegou o garoto no colo, tomou sua garrucha de cano largo da parede em que ficava pendurada e foi se sentar na velha cadeira de balanço no alpendre do casebre: iria ficar à espreita, e dessa vez se anteciparia ao maldito inexplicável que lhe tirara o sono e lhe embutira o terror.
Tanto foi a demora para que se repetisse o sonido, que, após mais de hora de vigília, tanto avô quanto neto retornaram à terra do onírico. Lá, o velho reencontrou -se com sua finada velha, mas esse encontro, com o qual com freqüência sonhava quando acordado, não contava com o contexto angelical que esperava. Não havia nada no universo além das duas figuras: não havia paisagem, céu ou chão, tudo era impecavelmente negro, exceto a velha que esbanjava uma luz que não vinha de lugar algum senão do seu próprio corpo. Havia ainda um odor estranho que parecia vir da velha, mas que permeava todo o espaço com uma violência implacável: o cheiro da morte que ele jamais havia sentido, mas que a velha já se mostrava acostumada. Apesar do tetrismo da cena, o velho não continha um sorriso aliviado na sua boca sem dentes, pois via à sua frente novamente a figura que amara durante todos os anos de vida.
De repente uma força anterior começou a impulsionar o velho na direção da velha e ele deixava-se levar sem intentar qualquer resistência, enquanto ela aguardava absolutamente impassível a sua aproximação. A três dedos do rosto da velha, o velho podia ver agora com clareza sua absoluta inexpressão: traços fundos, aspecto cadavérico, atmosfera luciférica. Ainda assim os olhos do velho brilhavam com lágrimas satisfeitas pelo momento do sonhado reencontro. Após um longo e nocivo silêncio, a velha precipitou-se sobre os ombros do velho tentando alcançar-lhe o ouvido. "Fala velha! fala tudo que quiser! fala!", torcia consigo o velho ao perceber o esforço descomunal que a velha fazia para descolar os lábios e emitir palavra qualquer. "Fala! eu quero que fale!", o velho já sentia o gelo da boca da velha alcançar-lhe o ouvido, sentia emocionado seu aspecto murcho e sem calor. "Fala!", lágirmas desesperadas corriam-lhe face abaixo, pois sentia que a velha queria lhe dizer alguma palavra, que se esforçava para tanto, e no entanto um impedimento superior lhe castrava qualquer possbilidade. Após certo tempo, quando enfim conseguiu descolar os lábios, o que saiu da sua boca não foi alguma palavra doce de amor ou conselho sábio da eternidade, mas um estrondo, o mesmo estrondo que havia antes tirado o velho da sua sesta, tirava-lha naquele momento a chance de ouvir a velha. Despertou num salto de sua cadeira de balanço puxando pelo braço seu neto que também já havia acordado e berrava desesperado, apavorado pelo barulho horrendo. O velho tornou sua garrucha para o norte e afligiu-se ao perceber que na verdade não mirava alvo algum. Procurou ao redor do abrigo qualquer coisa de plausível sem encontrar nada de incomum; no ceú havia apenas um risco retilíneo de uma fumaça branca que o dividia em duas metades perfeitas . E o barulho já esvaía-se mais uma vez com seu mistério, deixando naquela roça e naqueles dois seres seu terror.
O avô olhou para o neto e por um momento passou pela sua cabeça - por completo desespero - indagar ao garoto que diabos era aquilo. Lembrou-se da imagem da velha e correu para o cômodo onde os cacos desencaixados se dispunham no chão. Tremeu-se inteiro ao perceber que não havia mais a imagem perfeita do rosto da velha, mas que com o segundo tremor restara somente a sua fronte: seus olhinhos miúdos pareciam encarar penetrantemente o velho que segurava choroso o caco da imagem.
O velho não via outra saída para por termo ao temor do neto. Carregou o garoto para a estrada de chão que passava rente ao cercado da roça e, na primeira carroça que passou para a cidade, encomendou seu neto, dando-lhe o último afago, a última benção, o último beijo. O neto não pensou em resistir, pois sabia que o avô nunca deixou de fazer o que há no mundo de mais sábio. Quanto ao velho, este retornou à sua garrucha sentado na sua cadeira de balanço à beira do casebre, disposto a vingar-se do inexplicado no próximo estrondo. Passaria, então, o resto dos seus dias a conjeturar verdades.
