
A ausência de artigo em qualquer título faz refletir sobre a importância dos números. O homem é número até nos dentes. Um homem de 32 dentes tem uma altura específica, um par de olhos, de orelhas, uma boca somente, quatro membros e é identificado em qualquer instância da sua civilidade por um cadastro de tantos números seguidos de dois dígitos verificadores, obtidos pela precisão de cálculos mais ou menos complicados. Apesar de todo mundo fingir que ignora, tudo que se faça ou que se abstenha de fazer, carrega em si uma contagem regressiva em direção ao efeito: varia somente o ritmo da contagem ... no zero, espaçonaves ganham o espaço, as horas de um ano se esgotam, corações param de bater, vidas emergem de ventres, instalações desmoronam... explosão, pangeia, gente nos quatro cantos, gentes nos cantos... Mas, se não meço as ideias que vêm, perco o foco que tinha. Tratava dos números.
Páginas de livro, filho único, mapa de pirata. Onde se chega? Pirahã é uma tribo que vive dentro do perímetro de Humaitá. Humaitá tem cerca de 40 mil habitantes e fica a 765 km de Manaus, o que equivale a uma viagem de 4 dias via balsa. Pirahã está ameaçada de extinção. Contando atualmente com 350 membros, chamou recentemente a atenção dos filósofos e lingüistas por não terem desenvolvido na sua linguagem - a mura-pirahã-, termos que expressassem números. Pirahãs não sabem contar. Quanto tempo resta aos pirahãs? Divide-se o dividendo pelo divisor, o que ficar no rodapé da conta, meio sem lugar, é o resto. O resto assim parece lixo. Parece o que incomoda, parece ser o grão que não coube na panela, a gota inútil ao aquário, o pigarro mal tossido, excreção qualquer: o resto parece ser o resto, enfim. Mas de todos os nomes que se possa maldizer o que sobra, o mais inverossímel de todos é "resto". No resto não se pensa no prazo, mas na intensidade que no resto existe como potência. A raspa do bolo recém-batido pela mãe, a última gota do cantil, a embalagem melada de chocolate, a última cachaça comprada pelas últimas moedas do bolso, o tempo dos pirahã... já me perco nas palavras mais uma vez. Me desvio do que pretendia dizer. Falava dos números. Contagem regressiva...
A expectativa de vida - ou esperança de vida, como tem-se convencionado chamar - no Malawi é de 37,5 anos. Isso quer dizer que no momento em que uma criança malawiana nasce, ela não deve elevar seus planos de vida para álém da sua segunda idade. O cálculo da expectativa de vida, porém, não leva em conta absolutamente todos os indivíduos de Malawi, uma vez que pode haver malawianos expirando aos 37,5 anos de idade, mas também há os que têm vida após os 70. Esse fator não invalida nem tira a credibilidade que existe com relação ao método de cálculo da esperança de vida. Na verdade, as técnicas estatísticas aplicadas para se chegar ao resultado "37,5" não se comprometem em levar em conta as esperanças individuais de vida, mas criar uma generalidade que ilustre a condição em que os bebês malawianos inevitavelmente se encontrarão inseridos no momento do nascimento exatamente dentro dos limites políticos da República do Malawi. O fim aqui, ao contrário do que ocorre aos pirahãs, não é da nação malawiana, mas de cada um dos seus habitantes. Saberão os malawianos - ou ao menos levam em conta -que são malawianos? Saberão falar a língua que se fala no Malawi?Saberão que língua se fala no Malawi? Contagem regressiva, contagem regressiva, contagem regressiva!
Não posso me esquecer que, a cada letra que passa da mente ao papel, é uma letra a menos que resta para o fim da ideia. O fim da ideia! Até a ideia que não se consuma, se consome por um prazo no plano das ideias, até que seja refutada e largada ao léu: no zero...
Gerog Simmel foi um sociólogo que inovou a maneira de enxergar os números dentro da sociologia, pensando de um jeito diferente - além e aquém - dos dados estatísticos. Com um agente não se tem sociedade. Com dois se tem uma sociedade simplória, porém de três em diante a sociedade se complexifica de maneira exponencial. Exemplo: se somos eu e você interessados na sua fortuna, temos maneiras mais ou menos individualizadas de decidirmos como agiremos em prol da mesma. Nós podemos ser amigos por conveniência ou eu posso sutilmente envenenar o seu copo d'água, da mesma maneira que você, me considerando uma ameaça, pode me sufocar enquanto durmo. Se acrescentamos - criemos um nome para o personagem - Morfeu nessa situação, multiplicam-se as naturezas de relações. Pode ser que Morfeu se alie a mim e me proponha dividir com ele a sua fortuna; pode ser que Morfeu se alie a você, Morfeu pode querer nos eliminar, pode ser testemunha enquanto você tenta se livrar das evidências do seu crime, pode me convencer a virar seu inimigo etc etc etc.. Dessa maneira, para Simmel, o três é um número mágico, pois é ele que marca a diferença entre dois e o milhar. As novas formas de se relacionar apenas se repetem nas várias proporções a partir do três. Eixo no Mal, Tríplice Aliança, Ménage a Trois, Santíssima Trindade. Apenas a partir de três são possíveis a traição e a preferência. Dói dizer que, se só existisse dois em tudo o que há, ninguém preferiria ninguém em circunstância alguma, porque não haveria pra quem apontar o desgosto nem a indiferença. Seria o fim da mínima esperança de vida, o fim dos pirahãs... Zero.

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