segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O ANTÍPODA



Eu costumava passar ali toda noite, pois ali era o caminho mais curto de volta pra casa. Era gostoso ganhar o vento na cara no meio das árvores nativas do bosque, vendo correr calangos e voar os tordos cantarolantes, tranquilos. Depois do bosque uma leve ladeira e chegava em casa. Mas como não diz nenhum ditado, a paz é o vaticínio da guerra.
Foi numa noite de sábado, voltando não sei de onde, no escuro acolhedor do bosque eu tive a certeza que alguém me perseguia. Tive medo de olhar pra trás e mais medo ainda de não olhar. O homem assoviava, olhava pelas frestas das copas o céu, dissimulava. “Mas será possível?”, me falei um dia “Tanta paz por tanto tempo e agora não posso mais andar no bosque porque é perigoso! A partir de amanhã vou ter que passar pela rua com toda aquela gente mal criada e aqueles roncos de motor. Ai, adeus plantas e bichos, a Deus! A partir de amanhã vou pelo asfalto”.
Percebi, entretanto, que a cada olhadela disfarçada que eu dava pra trás, o homem que me perseguia escondia a cara e atrasava os passos. “Não vou abrir mão de você, meu, só meu, bosque! Devolve minhas plantas e meus bichos, Deus. Vou ser capaz de defendê-los”.
Um dia então, bruscamente, voltei meus passos pro meu perseguidor e ele saiu correndo embaralhado nos passos, meio confuso, surpreendido pela minha coragem. Afinal, quem enfrenta um desconhecido no mundo de hoje em dia? Eu mostrei pra’quele homem que eu enfrentava, ele morreu de medo disso e nunca mais o vi no bosque. Paz. Não um bom sinal.
Reinei novamente no meu bosque, e os tordos se voltavam só pra mim. Consegui um emprego, bem pago e em dia. Eu trabalhava demais, mas gostava de trabalhar, e, passado algum tempo, talvez pela minha entrega ao trabalho, a imagem do meu perseguidor já se esfumava na minha memória.
Vinha eu, subindo a ladeira e sibilando uma canção antiga, quando vejo no meu portão a mesma figura que me perseguia no bosque. Ao me ver, estabanado ele tentou pular o portão e desbancou de cabeça no chão, mas nem vacilou em reerguer-se e continuar sua fuga atrapalhada.
Corri desesperado pro interior da casa: meu aparelho DVD, minha TV Wide Screen, meu potentíssimo Aiwa, tudo nos seus devidos lugares. Meu perseguidor não havia levado nada, nada além da minha tranqüilidade.Em cima da cabeceira, um poema:

Essa pressa no peito,
É o medo que sente
Não escuse seu feito:
Labuteiro e indolente



Ora, poesia! Ela só me fez entraves no meu tempo de ginasial. Ai como odeio poesia!
Amassei o papel e o joguei no lixo. Considerei ligar pra polícia. “Melhor não. Esse diabo que me persegue tem medo de mim. Vou pegar ele de frente”.
No dia seguinte, faltei serviço dando uma desculpa qualquer. Esperei paciente o dia inteiro. Eu tinha certeza que ele viria de novo me importunar, pois como desdiz o ditado: o que os olhos não vêem, o coração pressente. E o meu perseguidor realmente apareceu, com sua cara cínica e absolutamente estranha. Nunca tinha visto ninguém daquele jeito, com tanta coragem. Coragem de vir ali, na maior cara-de-pau e pular o portão sem titubear no meio do dia. Segurava na mão um bilhetinho -decerto outro poema. Mas será que ele não sabe que eu odeio poemas?
De propósito, fiz um barulho no interior da casa, e ele, como eu esperava, se escondeu, se jogando no meio das folhas do maracujá. Ele pensava que eu não o tinha visto, e fez um silêncio de morte quando eu fui lá fora. Fingindo que ignorava sua presença, pude analisar bem o seu semblante: os olhos marcados de sono, o corpo esquálido e uma expressão de desespero misturado com apreensão. “Será que ele vai me ver?”, pensava o invasor. “Estou te vendo”, pensei comigo. Mas que fragilidade daquele homem. Como eu pude ter medo dele aquele tempo todo? Era fraco. Nitidamente não tinha bem uma personalidade, ou se tinha, faltou dar a ela uma aparência mais acabada, uma moldura menos tépida, mais bem definida.
Tentei então surpreender o perseguidor. Corri na sua direção a passos largos e gritando: “Ladrão! Ladrão!”. Mas não veio ninguém da vizinhança pra ver o que era. O homem fugiu, mas deixou cair o bilhetinho.

Sente-se aflito por não saber bem quem é?
Teme seu mundo por isso as grades?
Vê (?) estás rodeado de covardes,
Ausente de si, tal como bem quer

Fui na polícia. Pediram-me pra descrever o delinqüente:
-Um sujeito muito fraco, coitado. Claramente inseguro, sabe? Mas até que...
- A descrição física do delinqüente.
-Oh, sim. Olhos castanhos e fundos, cabelo encrespado...
Saí do distrito policial com uma cópia do retrato falado do delinqüente. Com a modernidade que se tem hoje em dia é impressionante o quanto a figura fica viva, parecendo que é o próprio criminoso que está preso naquela folha de papel.
Cheguei em casa exaurido. “Que dia!” Fui pro banheiro lavar o rosto. Deixei com descuidado a figura sobre o mármore da pia. “Que dia!” Levo a mão cheia d’água ao rosto, e quando abaixo os dedos e descubro os olhos, dou de cara com espelho. Que susto eu tomei! Caí pra trás como se eu tivesse batido de frente com uma manada de paquidermes. “Será possível?” Impressionado, com as mãos trêmulas, ergo-me do chão e pego com cuidado a figura. A figura treme nas minhas mãos, mas eu tenho certeza. Sim, eu tenho certeza! O retrato e o espelho... mostram a mesma pessoa!

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