
Camacho era mágico, mágico de verdade. Inclusive intentou a carreira de ilusionista uma vez e não emplacou, reconheceu-se como um desastre.
- Ilusionismo é que dá dinheiro – invejava de si pra si.
Camacho então tentava extrair do seu talento o seu mínimo sustento. Seu e de seu filho único de doze anos que sempre o auxiliava em seus números:
- Cheguem mais, cheguem mais pessoal, pra testemunhar o número do maior mágico do mundo! – Anunciava o garoto de meia em meia hora esbanjando entusiasmo.
Raro, muito raro era que alguém parasse pra ver a apresentação. Afinal ninguém acreditava em mágica. Ainda menos em se tratando daquele velho esfarrapado acompanhado por um moleque igualmente mal-vestido, que gritava feito um louco de meia em meia hora sabe-se lá o quê.
Uma vez porém, passava por ali debaixo do viaduto um garoto de sete anos ou seis acompanhado de sua mãe (devia de ser mãe) que carregava com cara de nojo o seu poodle francês.
- Acheguem-se, acheguem-se, pessoal, pra testemunhar o número do maior mágico do mundo!
O garoto se ateve e com os olhos perscrutou aquela insólita cena pra um centro de cidade que cada vez mais ficava mais cheio de cotovelos: o ajudante pulava livre e solto enquanto anunciava entusiasmado o espetáculo do pai; o pai concentrava-se sentado de perna de índio no chão mal forrado de papelão.
- Anda, anda.- Interferiu a moça do poodle – Vamos sair logo daqui. Esse povo é perigoso.
Mas o filho ignorou, se desprendeu da moça medrosa e parou em frente ao mágico de pé. Ele não temia mágica.
O filho de Camacho puxou de leve os cabelos do pai e este se precipitou pra cima do garoto forjando com sinceridade um sorriso.
- Essa moça é sua mãe, filho?
- É sim.
- E qual nome ela te deu?
- Morfeu. – Respondeu Morfeu em bom tom a Camacho
- Ah, Morfeu... – Repetiu Camacho como se aquele nome o fizesse pensar. Morfeu não entendeu. – Prepare-se Morfeu para o maior e talvez único espetáculo de mágica da sua vida.
E deu as costas pra ir pegar a caixa dos apetrechos mágicos: baralho, moedas, cartola, lenço de pano e afins. O filho e ajudante de Camacho se colocou na platéia ao lado de Morfeu.
- A-há! Morfeu! Observe, observe com toda a atenção que Deus lhe deu! – incitou o ânimo do garoto o mágico retirando da caixa uma moeda. O poodle latiu e a moça medrosa o alentou.
O coração do garoto dava pulinhos, sua atenção era inteira de Camacho, os olhos bem vivos atentavam pra todos os gestos e trejeitos do mágico. Este com leveza segurava a prata com o indicador e polegar direitos e ela ardia a vista cintilando sob o sol das duas.
Em movimentos rápidos que assustavam Morfeu, Camacho passava com sem-par agilidade a prata duma pra outra mão, e no fim de meio minuto ou pouco menos o mágico mostrou ao garoto as palmas das mãos, vazias. Quão extasiado ficou Morfeu! Olhou a mão espalmada de Camacho e nada entendeu. Procurou no assoalho, mexeu no bolso do mágico e nada da moeda. Era mágica, na mais pura demonstração da arte da magia.
- A moeda desapareceu, Morfeu, mas não pense que ficarei sem ela, já que sem ela nada é meu ofício. - E num movimento brusco levou o dedo à boca como que pedindo silêncio – Ouve isso, Morfeu? Ouve isso? – E num gesto sutil tirou do ouvido do garoto a pratinha desaparecida.
Simplesmente Morfeu não creu nos olhos, testemunhas daquilo tudo. Era incrível! Era realmente mágica! Já vira na televisão certa vez um mágico, uma outra vez viu um de longe no circo que seus amigos disseram não passar de um fazedor de truques manjados. Mas naquele instante não havia quem desviasse sua atenção, não havia truques, tampouco televisão que defasasse sua razão. Era pura magia o que via à frente.
A moça medrosa se impacientava e apressava o garoto Morfeu que nem bola deu e pediu um novo número.
- Preste muita atenção, garoto Morfeu –da caixa Camacho tirou a cartola –. Esse número é o meu maior, mas é bem ligeiro e não vai tomar o tempo rico de sua mãe.
O mágico mostrou a cartola a todos, inclusive ao poodle que não se privou de comprovar a oquidão do chapéu.
- Nada há e não há nada dentro, Morfeu.
O filho-ajudante de Camacho aparentava mais frenético que o próprio Morfeu e saltitava de um lado ao outro do “palco”, coçando os dedos e com as pernas irrequietas dizendo de segundo em segundo o seguinte:
- Morfeu, Morfeu, não tire os olhos da cartola Morfeu. Não olhe pra mim, mas pra cartola, Morfeu.
O garotinho então mantinha os olhos vivazes voltados pras expressões e pros gestos de Camacho, tanto por causa do apelo do filho-ajudante quanto pela sua curiosidade que era imensa, beirando o anormal.
Camacho ergueu bem alto a sua cartola de palha envolta em feltro. Bem o alto os olhos do garoto miraram. Camacho então desceu o chapéu à altura do peito e pôs-se a rondar magistralmente a mão e os dedos sobre seu instrumento mágico, dizendo cochichos surdos, olhos cerrados com pálpebras intermitentes. Até que “Há!”, gritou de inopino Camacho assustando o menino Morfeu. O mágico meteu seu braço até o fundo da cartola e eis que de lá é tirado um dengoso e felpudo coelhinho perdido em seus brancos cabelos, olhando medroso o mundo através de seus olhos vermelhos e cheirando a cidade com seu nariz cor-de-rosa.
O ajudante aplaudiu e gritou “bravo!”. O poodle enervou-se com a presença do coelho. A moça catava na bolsa moedinhas pra demonstrar sua caridade enquanto resmungava cobras e lagartos. O garoto Morfeu apenas manteve-se estático, inteiramente tomado por uma surpresa absurda e completamente realizado e feliz, pois até àquela altura parecia que magia não existia. Mas agora sabia, cria naquilo que seu olho via. Queria crer, por sinal.
- Obrigada moço – disse a moça ao velho mágico, e despejou na cartola alguns tantos tostões. – Vamos indo Morfeu, que esse povo é perigoso.
Ainda uma vez mais os olhos de Morfeu brilharam pro mágico e este lhe disse com graça e cortesia:
- Deus lhe pague, meu filho.
E após Morfeu, sua mãe e o poodle darem as costas, ao seu filho falou:
- Ele nunca mais vai ver outro número de mágica, filho.
- Ilusionismo é que dá dinheiro – invejava de si pra si.
Camacho então tentava extrair do seu talento o seu mínimo sustento. Seu e de seu filho único de doze anos que sempre o auxiliava em seus números:
- Cheguem mais, cheguem mais pessoal, pra testemunhar o número do maior mágico do mundo! – Anunciava o garoto de meia em meia hora esbanjando entusiasmo.
Raro, muito raro era que alguém parasse pra ver a apresentação. Afinal ninguém acreditava em mágica. Ainda menos em se tratando daquele velho esfarrapado acompanhado por um moleque igualmente mal-vestido, que gritava feito um louco de meia em meia hora sabe-se lá o quê.
Uma vez porém, passava por ali debaixo do viaduto um garoto de sete anos ou seis acompanhado de sua mãe (devia de ser mãe) que carregava com cara de nojo o seu poodle francês.
- Acheguem-se, acheguem-se, pessoal, pra testemunhar o número do maior mágico do mundo!
O garoto se ateve e com os olhos perscrutou aquela insólita cena pra um centro de cidade que cada vez mais ficava mais cheio de cotovelos: o ajudante pulava livre e solto enquanto anunciava entusiasmado o espetáculo do pai; o pai concentrava-se sentado de perna de índio no chão mal forrado de papelão.
- Anda, anda.- Interferiu a moça do poodle – Vamos sair logo daqui. Esse povo é perigoso.
Mas o filho ignorou, se desprendeu da moça medrosa e parou em frente ao mágico de pé. Ele não temia mágica.
O filho de Camacho puxou de leve os cabelos do pai e este se precipitou pra cima do garoto forjando com sinceridade um sorriso.
- Essa moça é sua mãe, filho?
- É sim.
- E qual nome ela te deu?
- Morfeu. – Respondeu Morfeu em bom tom a Camacho
- Ah, Morfeu... – Repetiu Camacho como se aquele nome o fizesse pensar. Morfeu não entendeu. – Prepare-se Morfeu para o maior e talvez único espetáculo de mágica da sua vida.
E deu as costas pra ir pegar a caixa dos apetrechos mágicos: baralho, moedas, cartola, lenço de pano e afins. O filho e ajudante de Camacho se colocou na platéia ao lado de Morfeu.
- A-há! Morfeu! Observe, observe com toda a atenção que Deus lhe deu! – incitou o ânimo do garoto o mágico retirando da caixa uma moeda. O poodle latiu e a moça medrosa o alentou.
O coração do garoto dava pulinhos, sua atenção era inteira de Camacho, os olhos bem vivos atentavam pra todos os gestos e trejeitos do mágico. Este com leveza segurava a prata com o indicador e polegar direitos e ela ardia a vista cintilando sob o sol das duas.
Em movimentos rápidos que assustavam Morfeu, Camacho passava com sem-par agilidade a prata duma pra outra mão, e no fim de meio minuto ou pouco menos o mágico mostrou ao garoto as palmas das mãos, vazias. Quão extasiado ficou Morfeu! Olhou a mão espalmada de Camacho e nada entendeu. Procurou no assoalho, mexeu no bolso do mágico e nada da moeda. Era mágica, na mais pura demonstração da arte da magia.
- A moeda desapareceu, Morfeu, mas não pense que ficarei sem ela, já que sem ela nada é meu ofício. - E num movimento brusco levou o dedo à boca como que pedindo silêncio – Ouve isso, Morfeu? Ouve isso? – E num gesto sutil tirou do ouvido do garoto a pratinha desaparecida.
Simplesmente Morfeu não creu nos olhos, testemunhas daquilo tudo. Era incrível! Era realmente mágica! Já vira na televisão certa vez um mágico, uma outra vez viu um de longe no circo que seus amigos disseram não passar de um fazedor de truques manjados. Mas naquele instante não havia quem desviasse sua atenção, não havia truques, tampouco televisão que defasasse sua razão. Era pura magia o que via à frente.
A moça medrosa se impacientava e apressava o garoto Morfeu que nem bola deu e pediu um novo número.
- Preste muita atenção, garoto Morfeu –da caixa Camacho tirou a cartola –. Esse número é o meu maior, mas é bem ligeiro e não vai tomar o tempo rico de sua mãe.
O mágico mostrou a cartola a todos, inclusive ao poodle que não se privou de comprovar a oquidão do chapéu.
- Nada há e não há nada dentro, Morfeu.
O filho-ajudante de Camacho aparentava mais frenético que o próprio Morfeu e saltitava de um lado ao outro do “palco”, coçando os dedos e com as pernas irrequietas dizendo de segundo em segundo o seguinte:
- Morfeu, Morfeu, não tire os olhos da cartola Morfeu. Não olhe pra mim, mas pra cartola, Morfeu.
O garotinho então mantinha os olhos vivazes voltados pras expressões e pros gestos de Camacho, tanto por causa do apelo do filho-ajudante quanto pela sua curiosidade que era imensa, beirando o anormal.
Camacho ergueu bem alto a sua cartola de palha envolta em feltro. Bem o alto os olhos do garoto miraram. Camacho então desceu o chapéu à altura do peito e pôs-se a rondar magistralmente a mão e os dedos sobre seu instrumento mágico, dizendo cochichos surdos, olhos cerrados com pálpebras intermitentes. Até que “Há!”, gritou de inopino Camacho assustando o menino Morfeu. O mágico meteu seu braço até o fundo da cartola e eis que de lá é tirado um dengoso e felpudo coelhinho perdido em seus brancos cabelos, olhando medroso o mundo através de seus olhos vermelhos e cheirando a cidade com seu nariz cor-de-rosa.
O ajudante aplaudiu e gritou “bravo!”. O poodle enervou-se com a presença do coelho. A moça catava na bolsa moedinhas pra demonstrar sua caridade enquanto resmungava cobras e lagartos. O garoto Morfeu apenas manteve-se estático, inteiramente tomado por uma surpresa absurda e completamente realizado e feliz, pois até àquela altura parecia que magia não existia. Mas agora sabia, cria naquilo que seu olho via. Queria crer, por sinal.
- Obrigada moço – disse a moça ao velho mágico, e despejou na cartola alguns tantos tostões. – Vamos indo Morfeu, que esse povo é perigoso.
Ainda uma vez mais os olhos de Morfeu brilharam pro mágico e este lhe disse com graça e cortesia:
- Deus lhe pague, meu filho.
E após Morfeu, sua mãe e o poodle darem as costas, ao seu filho falou:
- Ele nunca mais vai ver outro número de mágica, filho.

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