segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O MAL DO ESPIRRO DO PORCO


Começou com o espirro de um porco. Quiçá Deus - e ninguém mais - soubesse que naquele momento preciso uma partícula nanométrica da secreção suína invadiria inadvertidamente o organismo daquele homem que por ali passava sem se preocupar com o ar que respirava.

Mal sabia o azar que dera a humanidade naquele espaço estreito de tempo: o homem era justamente Morfeu. Homem ingênuo, incauto e impreciso. Mas o azar de todos que participam da raça homem não era exatamente os atributos pueris que carregava Morfeu. É que Morfeu, como gente à antiga, aprazia-se ao beijar quem tinha afeição, abraçar quem tinha respeito e apertar a mão de todos que lhe focasse o olhar- passava o tempo procurando contato com gente, venerava o toque, se apaixonava mil vezes ao dia; características que seriam qualidades se Morfeu não tivesse inalado por ignorância as partículas infecciosas do espirro agourento do porco.


Passaram três dias até que os sintomas aparecessem: acordou numa manhã com muita sede. A água que lhe gelou a garganta o saciou divinamente. Mas logo em seguida surgiu uma outra sensação indomável por sua força: a fome. Nada que um prato farto de caldo com pão não solucionasse problema tão primário, mas de fato não era suficiente para a premência da sensação seguinte: respirar. O ar do seu apartamento estava viciado com seu próprio cheiro e a falta de vento o sufocava de uma maneira tal que à certa altura Morfeu chegou a crer que não era mais capaz de sobreviver naquele recinto que pela primeira vez lhe parecera angustiante.

A satisfação que lhe proporcionou o primeiro passo pra fora de casa foi tanta que não conteve uma gargalhada estrondosa, não suja como a dos taberneiros, mas visceral, seguida de uma necessidade instintiva de gritar bem alto, não alguma ideia que lhe passasse na mente, mas algo que vinha direta e exclusivamente dos pulmões. Asssustou-se com seu próprio ato, mas não se diminuiu por conta disso: continuaria seu dia como fazia todos os dias. Experimentou centenas de sensações, cada uma delas em sua forma menos refletida e contida: dor, calor, torpor, sadismo, vontade... No fim da noite teve fome de sexo, satisfeita com a gentileza de uma moça impudica. Seguiu-se um sono pesado que Morfeu, sem sequer percebê-lo, já adormecia para satisfazê-lo.

Tal ciclo de emergências instintivas tornou-se dia-a-dia mais curto e não menos candente, o que fez com que o próprio organismo de Morfeu não resistisse à urgência das sensações. Após a infecção, no sétimo dia, descansava Morfeu.

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Não morria, porém, com Morfeu, o mal provindo do espirro do porco. A doença era contagiosa e qualquer contato o mal era repassado e potencializado. Como dito, Morfeu morreu como gente que gostava de gente e nos seus últimos dias beijou, abraçou e amou centenas de pessoas. Essas repassaram o mal para tantas outras, mesmo que não na mesma intensidade que Morfeu o havia feito. O mal pelo qual Morfeu era inocente e culpado se alastrava pelos quatro cantos de todos os lugares na velocidade da informação que implantava o caos acerca da pandemia.

Recomendou-se evitar espaços públicos e espaços privados onde não se pudesse garantir a distância mínima de meio metro entre pessoas. Cinemas, teatros, casas de espetáculos e auditórios universitários foram considerados viveiros do mal inexplicado. Num primeiro momento foi pedido que fossem evitados os compartilhamentos de talheres, copos e toalhas; em seguida, mulheres, corpos e lençóis foram incluídos na lista de proibições. Em uma semana ficou proibido o abraço pegajoso e o aperto de mão inútil. Não tardou para que entrasse na lista maldita a troca de olhar direta depois que pesquisas científicas de insituições de saúde de renome internacional concluíram que o olhar de alguns milésimos de segundo mirando um mesmo par de olhos era uma das formas mais potenciais de contágio do mal do espirro do porco.


Não por guerras nem por qualquer outro tipo de discórdia; não por ódio nem por desafetos civilizatórios históricos; nem pelas revoltas imprevisíveis e inexoráveis da natureza a humanidade se desintegrava num inferno sem perspectivas de ascensão. A razão de todo o destroço em que se metera o mundo dos homens era o espirro do porco, e o medo inventado a seu respeito.

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