domingo, 15 de novembro de 2015

O delírio


Saiu das têmporas daquele que desenxerga


Relapso ante a quimera


De querer curar o limite


Ao estulto, explosão:


Quimera






























Pena:


É por que voam cisnes


É por que nascem letras


É por que quedam homens:


Estagnados

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O ÚLTIMO PRESSÁGIO VEM EM FORMA DE SONHO


Um garoto de cinco anos vestido de kilt, agasalho de lã, boné de pano está agchado no pico de um vale, agarrado nos próprios joelhos, com os dedos delicados entrelaçados. O vale é impecavelmente verde, bem como a paisagem que o garoto contempla: montes libertos de qualquer ação humana, crivados por riachos que desenham continentes ao longo das superfícies.


Céu fechado, nuvens carregadas desde o cinza esbranquiçado até o azul claustrofóbico da tempestade. E Deus brinca com os dedos leves, levando de um lado para o outro as nuvens e pincelando cada uma de uma cor, ao seu belprazer. Diante da ubiquidade de Deus, da potência dos céus, da grandiloquencia dos grandes vales imaculados, o garoto morde os lábios tremendo de frio.


Por exagero irresponsável, duas nuvens pesadas se chocam e lançam ao solo do oriente cem mil megatons de calor. O vale verde se trona auri-rubro, o fogo avança imponentemente. O estanho da fumaça que sobe e ganha a atmosfera, a imprecisão dos traços das chamas que se confundem com o caos intrínseco das nuvens divinais: desencaixe deslumbrante, fazendo da paisagem um paraíso heterogêneo, aquarela esfumaçada, colorida de cores de limites indiscerníveis.

Mas o garoto teme a sofreguidão do fogo e assim que atenta à chama que vem, ergue-se e corre rumo ao ocidente para salvar seu corpo minúsculo da oxidação dilacerante. E corre, como jamais correu antes: ganha espaço a cada passo como um lince de andar gigante. Desce o vale, conta coma gravidade para desbancar tão rápido quanto possa para a área mais segura: distante da avidez ígnea. O fogo tem fome, e as pernas curtas do garoto não são suficientes para ganhar espaço ante o incêndio crescente.

Do ocidente de repente desmorona do núcleo de uma nuvem uma precipitação alucinante que, no seu primeiro segundo apenas, fez desmoronar todo o horizonte daquela direção. O garoto estava encurralado entre duas das maravilhas divinas e via sua vida um lapso, uma falha da Criação.

Entreabre-se então, bem à sua frente, entre os pés de dois montes, uma ravina monumental produzindo um estrondo só comparado ao clamor da pangeia. Sobre a ravina, os montes circundantes fizeram-lhe teto, formando assim uma gruta forte e espaçosa. Para ali então correu o garoto, como o náufrago que se apega a um sólido qualquer. A gruta era totalmente escura, mas o garoto não a temia, pois dali não via a pressa da chama nem o progresso da tempestade: via somente nada à sua frente.

Estranho é que também parou de ouvir todo o estardalhaço que havia lá fora, aliás não ouvia nada senão seus passos imprecisos por conta da arrogância do breu. Tornou sua cabeça na direção em que tinha adentrado e começou a temer novamente, pois não enxergava luz qualquer nem portal por onde teria passado. Mordendo os lábios não mais de frio, mas de terror, indagou ao léo com sua vozinha tépida:

- Tem alguém aí?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

SEGUNDO ÚLTIMO

As plantas dos pés no parapeito do oitavo andar. Se pra mim existisse o certo, desatino tal não seria razoável. Abro os braços e me apoio somente no vidro da janela, que, não obstante sua fragilidade, ainda me sustenta em pé. O sol que incandesce meu corpo, me impele que eu feche os olhos: eu não consigo enxergar a altura que há entre o ser e o nada. Os motivos não sei mais, a única coisa que me toma a consciência é o limite - se houver um limite - entre covardia e coragem quando se encontra no turbilhão do insuportável. Estranho... não vejo carros, transeuntes nem bombeiros mobilizados por minha causa; nenhum braço ou palavra próxima que me puxe pro interior do prédio, o telefone não está tocando nesse momento, o vento não me empurra pra direção contrária... o mundo me dá permissão. Ora, pra quê qualquer um pararia pra ver essa cena minha? Eu não sou um espetáculo: eu sou a tragédia em si; o lamento puro, sem motivo; a dor sem perspectiva de prazer. Se de outra forma fosse, não teria porquê planejar um fim. Assim, se eu fosse uma planta procuraria uma serra, se eu tivesse asas me afogaria numa chama, se fosse um peixe, me enterraria na argila. Como mero imberbe, portanto, num impulso sem esforço, resolvo alçar voo.

O berro silente, foi sublimado pelo calor de lembranças que, antes tidas como feitos determinados, ganham agora um propósito. Indiferença, desepero, angústia, aspiração de dor, dor, incômodo, conformidade, satisfação, felicidade, plenitude... parcelas no tempo que escolhi ser curto. Haverá asas pro arrependido? Não quero mais que... não desejo pra ninguém nenhuma... espero que no futuro... Ora! Vontade alguma faz efeito, desejo algum será satsfeito. A única coisa que restará é o meu segundo de história no meu milímetro de existência. Ainda assim restará não pra mim, mas para aqueles que atrasaram o passo e não tiveram tempo de me dar o braço nem palavra próxima; pra quem não ligou naquele momento pro meu telefone; pros transeuntes que terão de lidar com o vinho do meu sangue; pr'aqueles que se sentirem culpados ou distantes; pros ausentes constantes; pros constantes ausentes... Covardia foi o preço da coragem de plantar os pés no parapeito. Às vezes eu penso que não haverá mais do que...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O AVIÃO


Faziam, então, a sesta bem feita avô e neto ao meio-dia daquele dia comum, abrigados pelo casebre muito estreito, mas bem ventilado, localizado à meia altura do vale circuscrito pela cerca tosca de arame farpado e mastros de eucalipto. Tão rústico era o abrigo que, visto à distância metido no verde imaculado da relva, tocado por um riacho turvo que ziguezagueava vale abaixo, duvidava-se se aquilo era mesmo obra do homem ou detalhe da construção de Deus.

Porém, numa certa altura do sono, um estrondo despertou as duas criaturas da maneira mais rude, de modo que o avô saltou alerta da cama de palha buscando abrigar o neto no arco do corpo, temendo o tremor terrível que sofria a estrutura do casebre - até então tido como certo, como o mais sólido que o próprio chão que carrega o mundo. Àquela altura o neto já se agarrava aos próprios joelhos sentado no canto mais escuro do recinto, mas sairia dali no mesmo segundo puxado bruscamente por seu avô desnorteado, inundado de preocupação paternal. Carregando o garoto contra o peito e protegendo seu ouvido com sua mão macilenta, o avô precipitou-se para o exterior do abrigo, não com medo do estrondo que fazia fremir o universo, mas com sede de vingar seu sono interrompido.

A surpresa - que precede o medo -veio no momento exato em que o avô pôs os pés na relva e mirou seus olhos de águia para todos os horizontes possíveis sem avistar, porém, nenhuma matéria capaz de emitir sonido tão grandioso. Descansou seu neto no chão para averiguar com maior precisão os espaços que o cercavam, mas de fato não conseguia encontrar nada que justificasse o terror. Ouvia apenas um resquício do estrondo que ia desaparecendo devagar até sumir por completo e devolver à roça o silêncio que lhe é banal. O neto enxergou no olhar do avô o sentimento de medo ao qual pensava que o velho fosse imune, e agarrou-se firmemente às suas pernas esguias.

O avô retornou ao casebre frustrado por não ser capaz de criar palavra que alentasse o neto. No quarto pequeno, onde momentos antes dormiam avô e neto sono tão seguro, estava estilhaçada no assoalho a imagem da finada avó que por muitos anos ocupava posição privilegiada na prateleira dos parentes queridos. O velho amarrou o pranto que já lhe escapava nos olhos e pegou com ternura o maior caco que havia e que continha somente - como se tivesse sido precisamente recortado - o rosto da velha. O busto e a paisagem ao fundo - que completavam a imagem original - estavam pulverizados em cacos mínimos e indecifráveis. A coragem do velho conheceu naquele momento seu próprio limite: as pernas ficaram fracas, o coração recebeu cachoeiras de adrenalina, os olhos se arregalaram involuntariamente. Mas todo esse temor não podia vir à tona para o bem do neto, que não entendia bem porque o avô tremia tanto com aquele pedaço de imagem à mão. O velho pegou o garoto no colo, tomou sua garrucha de cano largo da parede em que ficava pendurada e foi se sentar na velha cadeira de balanço no alpendre do casebre: iria ficar à espreita, e dessa vez se anteciparia ao maldito inexplicável que lhe tirara o sono e lhe embutira o terror.

Tanto foi a demora para que se repetisse o sonido, que, após mais de hora de vigília, tanto avô quanto neto retornaram à terra do onírico. Lá, o velho reencontrou -se com sua finada velha, mas esse encontro, com o qual com freqüência sonhava quando acordado, não contava com o contexto angelical que esperava. Não havia nada no universo além das duas figuras: não havia paisagem, céu ou chão, tudo era impecavelmente negro, exceto a velha que esbanjava uma luz que não vinha de lugar algum senão do seu próprio corpo. Havia ainda um odor estranho que parecia vir da velha, mas que permeava todo o espaço com uma violência implacável: o cheiro da morte que ele jamais havia sentido, mas que a velha já se mostrava acostumada. Apesar do tetrismo da cena, o velho não continha um sorriso aliviado na sua boca sem dentes, pois via à sua frente novamente a figura que amara durante todos os anos de vida.


De repente uma força anterior começou a impulsionar o velho na direção da velha e ele deixava-se levar sem intentar qualquer resistência, enquanto ela aguardava absolutamente impassível a sua aproximação. A três dedos do rosto da velha, o velho podia ver agora com clareza sua absoluta inexpressão: traços fundos, aspecto cadavérico, atmosfera luciférica. Ainda assim os olhos do velho brilhavam com lágrimas satisfeitas pelo momento do sonhado reencontro. Após um longo e nocivo silêncio, a velha precipitou-se sobre os ombros do velho tentando alcançar-lhe o ouvido. "Fala velha! fala tudo que quiser! fala!", torcia consigo o velho ao perceber o esforço descomunal que a velha fazia para descolar os lábios e emitir palavra qualquer. "Fala! eu quero que fale!", o velho já sentia o gelo da boca da velha alcançar-lhe o ouvido, sentia emocionado seu aspecto murcho e sem calor. "Fala!", lágirmas desesperadas corriam-lhe face abaixo, pois sentia que a velha queria lhe dizer alguma palavra, que se esforçava para tanto, e no entanto um impedimento superior lhe castrava qualquer possbilidade. Após certo tempo, quando enfim conseguiu descolar os lábios, o que saiu da sua boca não foi alguma palavra doce de amor ou conselho sábio da eternidade, mas um estrondo, o mesmo estrondo que havia antes tirado o velho da sua sesta, tirava-lha naquele momento a chance de ouvir a velha. Despertou num salto de sua cadeira de balanço puxando pelo braço seu neto que também já havia acordado e berrava desesperado, apavorado pelo barulho horrendo. O velho tornou sua garrucha para o norte e afligiu-se ao perceber que na verdade não mirava alvo algum. Procurou ao redor do abrigo qualquer coisa de plausível sem encontrar nada de incomum; no ceú havia apenas um risco retilíneo de uma fumaça branca que o dividia em duas metades perfeitas . E o barulho já esvaía-se mais uma vez com seu mistério, deixando naquela roça e naqueles dois seres seu terror.

O avô olhou para o neto e por um momento passou pela sua cabeça - por completo desespero - indagar ao garoto que diabos era aquilo. Lembrou-se da imagem da velha e correu para o cômodo onde os cacos desencaixados se dispunham no chão. Tremeu-se inteiro ao perceber que não havia mais a imagem perfeita do rosto da velha, mas que com o segundo tremor restara somente a sua fronte: seus olhinhos miúdos pareciam encarar penetrantemente o velho que segurava choroso o caco da imagem.

O velho não via outra saída para por termo ao temor do neto. Carregou o garoto para a estrada de chão que passava rente ao cercado da roça e, na primeira carroça que passou para a cidade, encomendou seu neto, dando-lhe o último afago, a última benção, o último beijo. O neto não pensou em resistir, pois sabia que o avô nunca deixou de fazer o que há no mundo de mais sábio. Quanto ao velho, este retornou à sua garrucha sentado na sua cadeira de balanço à beira do casebre, disposto a vingar-se do inexplicado no próximo estrondo. Passaria, então, o resto dos seus dias a conjeturar verdades.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

IMPÉRIO NON SENSE


A ausência de artigo em qualquer título faz refletir sobre a importância dos números. O homem é número até nos dentes. Um homem de 32 dentes tem uma altura específica, um par de olhos, de orelhas, uma boca somente, quatro membros e é identificado em qualquer instância da sua civilidade por um cadastro de tantos números seguidos de dois dígitos verificadores, obtidos pela precisão de cálculos mais ou menos complicados. Apesar de todo mundo fingir que ignora, tudo que se faça ou que se abstenha de fazer, carrega em si uma contagem regressiva em direção ao efeito: varia somente o ritmo da contagem ... no zero, espaçonaves ganham o espaço, as horas de um ano se esgotam, corações param de bater, vidas emergem de ventres, instalações desmoronam... explosão, pangeia, gente nos quatro cantos, gentes nos cantos... Mas, se não meço as ideias que vêm, perco o foco que tinha. Tratava dos números.

Páginas de livro, filho único, mapa de pirata. Onde se chega? Pirahã é uma tribo que vive dentro do perímetro de Humaitá. Humaitá tem cerca de 40 mil habitantes e fica a 765 km de Manaus, o que equivale a uma viagem de 4 dias via balsa. Pirahã está ameaçada de extinção. Contando atualmente com 350 membros, chamou recentemente a atenção dos filósofos e lingüistas por não terem desenvolvido na sua linguagem - a mura-pirahã-, termos que expressassem números. Pirahãs não sabem contar. Quanto tempo resta aos pirahãs? Divide-se o dividendo pelo divisor, o que ficar no rodapé da conta, meio sem lugar, é o resto. O resto assim parece lixo. Parece o que incomoda, parece ser o grão que não coube na panela, a gota inútil ao aquário, o pigarro mal tossido, excreção qualquer: o resto parece ser o resto, enfim. Mas de todos os nomes que se possa maldizer o que sobra, o mais inverossímel de todos é "resto". No resto não se pensa no prazo, mas na intensidade que no resto existe como potência. A raspa do bolo recém-batido pela mãe, a última gota do cantil, a embalagem melada de chocolate, a última cachaça comprada pelas últimas moedas do bolso, o tempo dos pirahã... já me perco nas palavras mais uma vez. Me desvio do que pretendia dizer. Falava dos números. Contagem regressiva...


A expectativa de vida - ou esperança de vida, como tem-se convencionado chamar - no Malawi é de 37,5 anos. Isso quer dizer que no momento em que uma criança malawiana nasce, ela não deve elevar seus planos de vida para álém da sua segunda idade. O cálculo da expectativa de vida, porém, não leva em conta absolutamente todos os indivíduos de Malawi, uma vez que pode haver malawianos expirando aos 37,5 anos de idade, mas também há os que têm vida após os 70. Esse fator não invalida nem tira a credibilidade que existe com relação ao método de cálculo da esperança de vida. Na verdade, as técnicas estatísticas aplicadas para se chegar ao resultado "37,5" não se comprometem em levar em conta as esperanças individuais de vida, mas criar uma generalidade que ilustre a condição em que os bebês malawianos inevitavelmente se encontrarão inseridos no momento do nascimento exatamente dentro dos limites políticos da República do Malawi. O fim aqui, ao contrário do que ocorre aos pirahãs, não é da nação malawiana, mas de cada um dos seus habitantes. Saberão os malawianos - ou ao menos levam em conta -que são malawianos? Saberão falar a língua que se fala no Malawi?Saberão que língua se fala no Malawi? Contagem regressiva, contagem regressiva, contagem regressiva!


Não posso me esquecer que, a cada letra que passa da mente ao papel, é uma letra a menos que resta para o fim da ideia. O fim da ideia! Até a ideia que não se consuma, se consome por um prazo no plano das ideias, até que seja refutada e largada ao léu: no zero...

Gerog Simmel foi um sociólogo que inovou a maneira de enxergar os números dentro da sociologia, pensando de um jeito diferente - além e aquém - dos dados estatísticos. Com um agente não se tem sociedade. Com dois se tem uma sociedade simplória, porém de três em diante a sociedade se complexifica de maneira exponencial. Exemplo: se somos eu e você interessados na sua fortuna, temos maneiras mais ou menos individualizadas de decidirmos como agiremos em prol da mesma. Nós podemos ser amigos por conveniência ou eu posso sutilmente envenenar o seu copo d'água, da mesma maneira que você, me considerando uma ameaça, pode me sufocar enquanto durmo. Se acrescentamos - criemos um nome para o personagem - Morfeu nessa situação, multiplicam-se as naturezas de relações. Pode ser que Morfeu se alie a mim e me proponha dividir com ele a sua fortuna; pode ser que Morfeu se alie a você, Morfeu pode querer nos eliminar, pode ser testemunha enquanto você tenta se livrar das evidências do seu crime, pode me convencer a virar seu inimigo etc etc etc.. Dessa maneira, para Simmel, o três é um número mágico, pois é ele que marca a diferença entre dois e o milhar. As novas formas de se relacionar apenas se repetem nas várias proporções a partir do três. Eixo no Mal, Tríplice Aliança, Ménage a Trois, Santíssima Trindade. Apenas a partir de três são possíveis a traição e a preferência. Dói dizer que, se só existisse dois em tudo o que há, ninguém preferiria ninguém em circunstância alguma, porque não haveria pra quem apontar o desgosto nem a indiferença. Seria o fim da mínima esperança de vida, o fim dos pirahãs... Zero.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O ANTÍPODA



Eu costumava passar ali toda noite, pois ali era o caminho mais curto de volta pra casa. Era gostoso ganhar o vento na cara no meio das árvores nativas do bosque, vendo correr calangos e voar os tordos cantarolantes, tranquilos. Depois do bosque uma leve ladeira e chegava em casa. Mas como não diz nenhum ditado, a paz é o vaticínio da guerra.
Foi numa noite de sábado, voltando não sei de onde, no escuro acolhedor do bosque eu tive a certeza que alguém me perseguia. Tive medo de olhar pra trás e mais medo ainda de não olhar. O homem assoviava, olhava pelas frestas das copas o céu, dissimulava. “Mas será possível?”, me falei um dia “Tanta paz por tanto tempo e agora não posso mais andar no bosque porque é perigoso! A partir de amanhã vou ter que passar pela rua com toda aquela gente mal criada e aqueles roncos de motor. Ai, adeus plantas e bichos, a Deus! A partir de amanhã vou pelo asfalto”.
Percebi, entretanto, que a cada olhadela disfarçada que eu dava pra trás, o homem que me perseguia escondia a cara e atrasava os passos. “Não vou abrir mão de você, meu, só meu, bosque! Devolve minhas plantas e meus bichos, Deus. Vou ser capaz de defendê-los”.
Um dia então, bruscamente, voltei meus passos pro meu perseguidor e ele saiu correndo embaralhado nos passos, meio confuso, surpreendido pela minha coragem. Afinal, quem enfrenta um desconhecido no mundo de hoje em dia? Eu mostrei pra’quele homem que eu enfrentava, ele morreu de medo disso e nunca mais o vi no bosque. Paz. Não um bom sinal.
Reinei novamente no meu bosque, e os tordos se voltavam só pra mim. Consegui um emprego, bem pago e em dia. Eu trabalhava demais, mas gostava de trabalhar, e, passado algum tempo, talvez pela minha entrega ao trabalho, a imagem do meu perseguidor já se esfumava na minha memória.
Vinha eu, subindo a ladeira e sibilando uma canção antiga, quando vejo no meu portão a mesma figura que me perseguia no bosque. Ao me ver, estabanado ele tentou pular o portão e desbancou de cabeça no chão, mas nem vacilou em reerguer-se e continuar sua fuga atrapalhada.
Corri desesperado pro interior da casa: meu aparelho DVD, minha TV Wide Screen, meu potentíssimo Aiwa, tudo nos seus devidos lugares. Meu perseguidor não havia levado nada, nada além da minha tranqüilidade.Em cima da cabeceira, um poema:

Essa pressa no peito,
É o medo que sente
Não escuse seu feito:
Labuteiro e indolente



Ora, poesia! Ela só me fez entraves no meu tempo de ginasial. Ai como odeio poesia!
Amassei o papel e o joguei no lixo. Considerei ligar pra polícia. “Melhor não. Esse diabo que me persegue tem medo de mim. Vou pegar ele de frente”.
No dia seguinte, faltei serviço dando uma desculpa qualquer. Esperei paciente o dia inteiro. Eu tinha certeza que ele viria de novo me importunar, pois como desdiz o ditado: o que os olhos não vêem, o coração pressente. E o meu perseguidor realmente apareceu, com sua cara cínica e absolutamente estranha. Nunca tinha visto ninguém daquele jeito, com tanta coragem. Coragem de vir ali, na maior cara-de-pau e pular o portão sem titubear no meio do dia. Segurava na mão um bilhetinho -decerto outro poema. Mas será que ele não sabe que eu odeio poemas?
De propósito, fiz um barulho no interior da casa, e ele, como eu esperava, se escondeu, se jogando no meio das folhas do maracujá. Ele pensava que eu não o tinha visto, e fez um silêncio de morte quando eu fui lá fora. Fingindo que ignorava sua presença, pude analisar bem o seu semblante: os olhos marcados de sono, o corpo esquálido e uma expressão de desespero misturado com apreensão. “Será que ele vai me ver?”, pensava o invasor. “Estou te vendo”, pensei comigo. Mas que fragilidade daquele homem. Como eu pude ter medo dele aquele tempo todo? Era fraco. Nitidamente não tinha bem uma personalidade, ou se tinha, faltou dar a ela uma aparência mais acabada, uma moldura menos tépida, mais bem definida.
Tentei então surpreender o perseguidor. Corri na sua direção a passos largos e gritando: “Ladrão! Ladrão!”. Mas não veio ninguém da vizinhança pra ver o que era. O homem fugiu, mas deixou cair o bilhetinho.

Sente-se aflito por não saber bem quem é?
Teme seu mundo por isso as grades?
Vê (?) estás rodeado de covardes,
Ausente de si, tal como bem quer

Fui na polícia. Pediram-me pra descrever o delinqüente:
-Um sujeito muito fraco, coitado. Claramente inseguro, sabe? Mas até que...
- A descrição física do delinqüente.
-Oh, sim. Olhos castanhos e fundos, cabelo encrespado...
Saí do distrito policial com uma cópia do retrato falado do delinqüente. Com a modernidade que se tem hoje em dia é impressionante o quanto a figura fica viva, parecendo que é o próprio criminoso que está preso naquela folha de papel.
Cheguei em casa exaurido. “Que dia!” Fui pro banheiro lavar o rosto. Deixei com descuidado a figura sobre o mármore da pia. “Que dia!” Levo a mão cheia d’água ao rosto, e quando abaixo os dedos e descubro os olhos, dou de cara com espelho. Que susto eu tomei! Caí pra trás como se eu tivesse batido de frente com uma manada de paquidermes. “Será possível?” Impressionado, com as mãos trêmulas, ergo-me do chão e pego com cuidado a figura. A figura treme nas minhas mãos, mas eu tenho certeza. Sim, eu tenho certeza! O retrato e o espelho... mostram a mesma pessoa!

domingo, 6 de setembro de 2009

Morfeu Acredita


Camacho era mágico, mágico de verdade. Inclusive intentou a carreira de ilusionista uma vez e não emplacou, reconheceu-se como um desastre.
- Ilusionismo é que dá dinheiro – invejava de si pra si.
Camacho então tentava extrair do seu talento o seu mínimo sustento. Seu e de seu filho único de doze anos que sempre o auxiliava em seus números:
- Cheguem mais, cheguem mais pessoal, pra testemunhar o número do maior mágico do mundo! – Anunciava o garoto de meia em meia hora esbanjando entusiasmo.
Raro, muito raro era que alguém parasse pra ver a apresentação. Afinal ninguém acreditava em mágica. Ainda menos em se tratando daquele velho esfarrapado acompanhado por um moleque igualmente mal-vestido, que gritava feito um louco de meia em meia hora sabe-se lá o quê.
Uma vez porém, passava por ali debaixo do viaduto um garoto de sete anos ou seis acompanhado de sua mãe (devia de ser mãe) que carregava com cara de nojo o seu poodle francês.
- Acheguem-se, acheguem-se, pessoal, pra testemunhar o número do maior mágico do mundo!
O garoto se ateve e com os olhos perscrutou aquela insólita cena pra um centro de cidade que cada vez mais ficava mais cheio de cotovelos: o ajudante pulava livre e solto enquanto anunciava entusiasmado o espetáculo do pai; o pai concentrava-se sentado de perna de índio no chão mal forrado de papelão.
- Anda, anda.- Interferiu a moça do poodle – Vamos sair logo daqui. Esse povo é perigoso.
Mas o filho ignorou, se desprendeu da moça medrosa e parou em frente ao mágico de pé. Ele não temia mágica.
O filho de Camacho puxou de leve os cabelos do pai e este se precipitou pra cima do garoto forjando com sinceridade um sorriso.
- Essa moça é sua mãe, filho?
- É sim.
- E qual nome ela te deu?
- Morfeu. – Respondeu Morfeu em bom tom a Camacho
- Ah, Morfeu... – Repetiu Camacho como se aquele nome o fizesse pensar. Morfeu não entendeu. – Prepare-se Morfeu para o maior e talvez único espetáculo de mágica da sua vida.
E deu as costas pra ir pegar a caixa dos apetrechos mágicos: baralho, moedas, cartola, lenço de pano e afins. O filho e ajudante de Camacho se colocou na platéia ao lado de Morfeu.
- A-há! Morfeu! Observe, observe com toda a atenção que Deus lhe deu! – incitou o ânimo do garoto o mágico retirando da caixa uma moeda. O poodle latiu e a moça medrosa o alentou.
O coração do garoto dava pulinhos, sua atenção era inteira de Camacho, os olhos bem vivos atentavam pra todos os gestos e trejeitos do mágico. Este com leveza segurava a prata com o indicador e polegar direitos e ela ardia a vista cintilando sob o sol das duas.
Em movimentos rápidos que assustavam Morfeu, Camacho passava com sem-par agilidade a prata duma pra outra mão, e no fim de meio minuto ou pouco menos o mágico mostrou ao garoto as palmas das mãos, vazias. Quão extasiado ficou Morfeu! Olhou a mão espalmada de Camacho e nada entendeu. Procurou no assoalho, mexeu no bolso do mágico e nada da moeda. Era mágica, na mais pura demonstração da arte da magia.
- A moeda desapareceu, Morfeu, mas não pense que ficarei sem ela, já que sem ela nada é meu ofício. - E num movimento brusco levou o dedo à boca como que pedindo silêncio – Ouve isso, Morfeu? Ouve isso? – E num gesto sutil tirou do ouvido do garoto a pratinha desaparecida.
Simplesmente Morfeu não creu nos olhos, testemunhas daquilo tudo. Era incrível! Era realmente mágica! Já vira na televisão certa vez um mágico, uma outra vez viu um de longe no circo que seus amigos disseram não passar de um fazedor de truques manjados. Mas naquele instante não havia quem desviasse sua atenção, não havia truques, tampouco televisão que defasasse sua razão. Era pura magia o que via à frente.
A moça medrosa se impacientava e apressava o garoto Morfeu que nem bola deu e pediu um novo número.
- Preste muita atenção, garoto Morfeu –da caixa Camacho tirou a cartola –. Esse número é o meu maior, mas é bem ligeiro e não vai tomar o tempo rico de sua mãe.
O mágico mostrou a cartola a todos, inclusive ao poodle que não se privou de comprovar a oquidão do chapéu.
- Nada há e não há nada dentro, Morfeu.
O filho-ajudante de Camacho aparentava mais frenético que o próprio Morfeu e saltitava de um lado ao outro do “palco”, coçando os dedos e com as pernas irrequietas dizendo de segundo em segundo o seguinte:
- Morfeu, Morfeu, não tire os olhos da cartola Morfeu. Não olhe pra mim, mas pra cartola, Morfeu.
O garotinho então mantinha os olhos vivazes voltados pras expressões e pros gestos de Camacho, tanto por causa do apelo do filho-ajudante quanto pela sua curiosidade que era imensa, beirando o anormal.
Camacho ergueu bem alto a sua cartola de palha envolta em feltro. Bem o alto os olhos do garoto miraram. Camacho então desceu o chapéu à altura do peito e pôs-se a rondar magistralmente a mão e os dedos sobre seu instrumento mágico, dizendo cochichos surdos, olhos cerrados com pálpebras intermitentes. Até que “Há!”, gritou de inopino Camacho assustando o menino Morfeu. O mágico meteu seu braço até o fundo da cartola e eis que de lá é tirado um dengoso e felpudo coelhinho perdido em seus brancos cabelos, olhando medroso o mundo através de seus olhos vermelhos e cheirando a cidade com seu nariz cor-de-rosa.
O ajudante aplaudiu e gritou “bravo!”. O poodle enervou-se com a presença do coelho. A moça catava na bolsa moedinhas pra demonstrar sua caridade enquanto resmungava cobras e lagartos. O garoto Morfeu apenas manteve-se estático, inteiramente tomado por uma surpresa absurda e completamente realizado e feliz, pois até àquela altura parecia que magia não existia. Mas agora sabia, cria naquilo que seu olho via. Queria crer, por sinal.
- Obrigada moço – disse a moça ao velho mágico, e despejou na cartola alguns tantos tostões. – Vamos indo Morfeu, que esse povo é perigoso.
Ainda uma vez mais os olhos de Morfeu brilharam pro mágico e este lhe disse com graça e cortesia:
- Deus lhe pague, meu filho.
E após Morfeu, sua mãe e o poodle darem as costas, ao seu filho falou:
- Ele nunca mais vai ver outro número de mágica, filho.