domingo, 15 de novembro de 2015
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
O ÚLTIMO PRESSÁGIO VEM EM FORMA DE SONHO

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
SEGUNDO ÚLTIMO
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
O AVIÃO

O avô retornou ao casebre frustrado por não ser capaz de criar palavra que alentasse o neto. No quarto pequeno, onde momentos antes dormiam avô e neto sono tão seguro, estava estilhaçada no assoalho a imagem da finada avó que por muitos anos ocupava posição privilegiada na prateleira dos parentes queridos. O velho amarrou o pranto que já lhe escapava nos olhos e pegou com ternura o maior caco que havia e que continha somente - como se tivesse sido precisamente recortado - o rosto da velha. O busto e a paisagem ao fundo - que completavam a imagem original - estavam pulverizados em cacos mínimos e indecifráveis. A coragem do velho conheceu naquele momento seu próprio limite: as pernas ficaram fracas, o coração recebeu cachoeiras de adrenalina, os olhos se arregalaram involuntariamente. Mas todo esse temor não podia vir à tona para o bem do neto, que não entendia bem porque o avô tremia tanto com aquele pedaço de imagem à mão. O velho pegou o garoto no colo, tomou sua garrucha de cano largo da parede em que ficava pendurada e foi se sentar na velha cadeira de balanço no alpendre do casebre: iria ficar à espreita, e dessa vez se anteciparia ao maldito inexplicável que lhe tirara o sono e lhe embutira o terror.
Tanto foi a demora para que se repetisse o sonido, que, após mais de hora de vigília, tanto avô quanto neto retornaram à terra do onírico. Lá, o velho reencontrou -se com sua finada velha, mas esse encontro, com o qual com freqüência sonhava quando acordado, não contava com o contexto angelical que esperava. Não havia nada no universo além das duas figuras: não havia paisagem, céu ou chão, tudo era impecavelmente negro, exceto a velha que esbanjava uma luz que não vinha de lugar algum senão do seu próprio corpo. Havia ainda um odor estranho que parecia vir da velha, mas que permeava todo o espaço com uma violência implacável: o cheiro da morte que ele jamais havia sentido, mas que a velha já se mostrava acostumada. Apesar do tetrismo da cena, o velho não continha um sorriso aliviado na sua boca sem dentes, pois via à sua frente novamente a figura que amara durante todos os anos de vida.
De repente uma força anterior começou a impulsionar o velho na direção da velha e ele deixava-se levar sem intentar qualquer resistência, enquanto ela aguardava absolutamente impassível a sua aproximação. A três dedos do rosto da velha, o velho podia ver agora com clareza sua absoluta inexpressão: traços fundos, aspecto cadavérico, atmosfera luciférica. Ainda assim os olhos do velho brilhavam com lágrimas satisfeitas pelo momento do sonhado reencontro. Após um longo e nocivo silêncio, a velha precipitou-se sobre os ombros do velho tentando alcançar-lhe o ouvido. "Fala velha! fala tudo que quiser! fala!", torcia consigo o velho ao perceber o esforço descomunal que a velha fazia para descolar os lábios e emitir palavra qualquer. "Fala! eu quero que fale!", o velho já sentia o gelo da boca da velha alcançar-lhe o ouvido, sentia emocionado seu aspecto murcho e sem calor. "Fala!", lágirmas desesperadas corriam-lhe face abaixo, pois sentia que a velha queria lhe dizer alguma palavra, que se esforçava para tanto, e no entanto um impedimento superior lhe castrava qualquer possbilidade. Após certo tempo, quando enfim conseguiu descolar os lábios, o que saiu da sua boca não foi alguma palavra doce de amor ou conselho sábio da eternidade, mas um estrondo, o mesmo estrondo que havia antes tirado o velho da sua sesta, tirava-lha naquele momento a chance de ouvir a velha. Despertou num salto de sua cadeira de balanço puxando pelo braço seu neto que também já havia acordado e berrava desesperado, apavorado pelo barulho horrendo. O velho tornou sua garrucha para o norte e afligiu-se ao perceber que na verdade não mirava alvo algum. Procurou ao redor do abrigo qualquer coisa de plausível sem encontrar nada de incomum; no ceú havia apenas um risco retilíneo de uma fumaça branca que o dividia em duas metades perfeitas . E o barulho já esvaía-se mais uma vez com seu mistério, deixando naquela roça e naqueles dois seres seu terror.
O avô olhou para o neto e por um momento passou pela sua cabeça - por completo desespero - indagar ao garoto que diabos era aquilo. Lembrou-se da imagem da velha e correu para o cômodo onde os cacos desencaixados se dispunham no chão. Tremeu-se inteiro ao perceber que não havia mais a imagem perfeita do rosto da velha, mas que com o segundo tremor restara somente a sua fronte: seus olhinhos miúdos pareciam encarar penetrantemente o velho que segurava choroso o caco da imagem.
O velho não via outra saída para por termo ao temor do neto. Carregou o garoto para a estrada de chão que passava rente ao cercado da roça e, na primeira carroça que passou para a cidade, encomendou seu neto, dando-lhe o último afago, a última benção, o último beijo. O neto não pensou em resistir, pois sabia que o avô nunca deixou de fazer o que há no mundo de mais sábio. Quanto ao velho, este retornou à sua garrucha sentado na sua cadeira de balanço à beira do casebre, disposto a vingar-se do inexplicado no próximo estrondo. Passaria, então, o resto dos seus dias a conjeturar verdades.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
IMPÉRIO NON SENSE

segunda-feira, 14 de setembro de 2009
O ANTÍPODA

Eu costumava passar ali toda noite, pois ali era o caminho mais curto de volta pra casa. Era gostoso ganhar o vento na cara no meio das árvores nativas do bosque, vendo correr calangos e voar os tordos cantarolantes, tranquilos. Depois do bosque uma leve ladeira e chegava em casa. Mas como não diz nenhum ditado, a paz é o vaticínio da guerra.
Foi numa noite de sábado, voltando não sei de onde, no escuro acolhedor do bosque eu tive a certeza que alguém me perseguia. Tive medo de olhar pra trás e mais medo ainda de não olhar. O homem assoviava, olhava pelas frestas das copas o céu, dissimulava. “Mas será possível?”, me falei um dia “Tanta paz por tanto tempo e agora não posso mais andar no bosque porque é perigoso! A partir de amanhã vou ter que passar pela rua com toda aquela gente mal criada e aqueles roncos de motor. Ai, adeus plantas e bichos, a Deus! A partir de amanhã vou pelo asfalto”.
Percebi, entretanto, que a cada olhadela disfarçada que eu dava pra trás, o homem que me perseguia escondia a cara e atrasava os passos. “Não vou abrir mão de você, meu, só meu, bosque! Devolve minhas plantas e meus bichos, Deus. Vou ser capaz de defendê-los”.
Um dia então, bruscamente, voltei meus passos pro meu perseguidor e ele saiu correndo embaralhado nos passos, meio confuso, surpreendido pela minha coragem. Afinal, quem enfrenta um desconhecido no mundo de hoje em dia? Eu mostrei pra’quele homem que eu enfrentava, ele morreu de medo disso e nunca mais o vi no bosque. Paz. Não um bom sinal.
Reinei novamente no meu bosque, e os tordos se voltavam só pra mim. Consegui um emprego, bem pago e em dia. Eu trabalhava demais, mas gostava de trabalhar, e, passado algum tempo, talvez pela minha entrega ao trabalho, a imagem do meu perseguidor já se esfumava na minha memória.
Vinha eu, subindo a ladeira e sibilando uma canção antiga, quando vejo no meu portão a mesma figura que me perseguia no bosque. Ao me ver, estabanado ele tentou pular o portão e desbancou de cabeça no chão, mas nem vacilou em reerguer-se e continuar sua fuga atrapalhada.
Corri desesperado pro interior da casa: meu aparelho DVD, minha TV Wide Screen, meu potentíssimo Aiwa, tudo nos seus devidos lugares. Meu perseguidor não havia levado nada, nada além da minha tranqüilidade.Em cima da cabeceira, um poema:
Essa pressa no peito,
É o medo que sente
Não escuse seu feito:
Labuteiro e indolente
Ora, poesia! Ela só me fez entraves no meu tempo de ginasial. Ai como odeio poesia!
Amassei o papel e o joguei no lixo. Considerei ligar pra polícia. “Melhor não. Esse diabo que me persegue tem medo de mim. Vou pegar ele de frente”.
No dia seguinte, faltei serviço dando uma desculpa qualquer. Esperei paciente o dia inteiro. Eu tinha certeza que ele viria de novo me importunar, pois como desdiz o ditado: o que os olhos não vêem, o coração pressente. E o meu perseguidor realmente apareceu, com sua cara cínica e absolutamente estranha. Nunca tinha visto ninguém daquele jeito, com tanta coragem. Coragem de vir ali, na maior cara-de-pau e pular o portão sem titubear no meio do dia. Segurava na mão um bilhetinho -decerto outro poema. Mas será que ele não sabe que eu odeio poemas?
De propósito, fiz um barulho no interior da casa, e ele, como eu esperava, se escondeu, se jogando no meio das folhas do maracujá. Ele pensava que eu não o tinha visto, e fez um silêncio de morte quando eu fui lá fora. Fingindo que ignorava sua presença, pude analisar bem o seu semblante: os olhos marcados de sono, o corpo esquálido e uma expressão de desespero misturado com apreensão. “Será que ele vai me ver?”, pensava o invasor. “Estou te vendo”, pensei comigo. Mas que fragilidade daquele homem. Como eu pude ter medo dele aquele tempo todo? Era fraco. Nitidamente não tinha bem uma personalidade, ou se tinha, faltou dar a ela uma aparência mais acabada, uma moldura menos tépida, mais bem definida.
Tentei então surpreender o perseguidor. Corri na sua direção a passos largos e gritando: “Ladrão! Ladrão!”. Mas não veio ninguém da vizinhança pra ver o que era. O homem fugiu, mas deixou cair o bilhetinho.
Sente-se aflito por não saber bem quem é?
Teme seu mundo por isso as grades?
Vê (?) estás rodeado de covardes,
Ausente de si, tal como bem quer
Fui na polícia. Pediram-me pra descrever o delinqüente:
-Um sujeito muito fraco, coitado. Claramente inseguro, sabe? Mas até que...
- A descrição física do delinqüente.
-Oh, sim. Olhos castanhos e fundos, cabelo encrespado...
Saí do distrito policial com uma cópia do retrato falado do delinqüente. Com a modernidade que se tem hoje em dia é impressionante o quanto a figura fica viva, parecendo que é o próprio criminoso que está preso naquela folha de papel.
Cheguei em casa exaurido. “Que dia!” Fui pro banheiro lavar o rosto. Deixei com descuidado a figura sobre o mármore da pia. “Que dia!” Levo a mão cheia d’água ao rosto, e quando abaixo os dedos e descubro os olhos, dou de cara com espelho. Que susto eu tomei! Caí pra trás como se eu tivesse batido de frente com uma manada de paquidermes. “Será possível?” Impressionado, com as mãos trêmulas, ergo-me do chão e pego com cuidado a figura. A figura treme nas minhas mãos, mas eu tenho certeza. Sim, eu tenho certeza! O retrato e o espelho... mostram a mesma pessoa!
domingo, 6 de setembro de 2009
Morfeu Acredita

- Ilusionismo é que dá dinheiro – invejava de si pra si.
Camacho então tentava extrair do seu talento o seu mínimo sustento. Seu e de seu filho único de doze anos que sempre o auxiliava em seus números:
- Cheguem mais, cheguem mais pessoal, pra testemunhar o número do maior mágico do mundo! – Anunciava o garoto de meia em meia hora esbanjando entusiasmo.
Raro, muito raro era que alguém parasse pra ver a apresentação. Afinal ninguém acreditava em mágica. Ainda menos em se tratando daquele velho esfarrapado acompanhado por um moleque igualmente mal-vestido, que gritava feito um louco de meia em meia hora sabe-se lá o quê.
Uma vez porém, passava por ali debaixo do viaduto um garoto de sete anos ou seis acompanhado de sua mãe (devia de ser mãe) que carregava com cara de nojo o seu poodle francês.
- Acheguem-se, acheguem-se, pessoal, pra testemunhar o número do maior mágico do mundo!
O garoto se ateve e com os olhos perscrutou aquela insólita cena pra um centro de cidade que cada vez mais ficava mais cheio de cotovelos: o ajudante pulava livre e solto enquanto anunciava entusiasmado o espetáculo do pai; o pai concentrava-se sentado de perna de índio no chão mal forrado de papelão.
- Anda, anda.- Interferiu a moça do poodle – Vamos sair logo daqui. Esse povo é perigoso.
Mas o filho ignorou, se desprendeu da moça medrosa e parou em frente ao mágico de pé. Ele não temia mágica.
O filho de Camacho puxou de leve os cabelos do pai e este se precipitou pra cima do garoto forjando com sinceridade um sorriso.
- Essa moça é sua mãe, filho?
- É sim.
- E qual nome ela te deu?
- Morfeu. – Respondeu Morfeu em bom tom a Camacho
- Ah, Morfeu... – Repetiu Camacho como se aquele nome o fizesse pensar. Morfeu não entendeu. – Prepare-se Morfeu para o maior e talvez único espetáculo de mágica da sua vida.
E deu as costas pra ir pegar a caixa dos apetrechos mágicos: baralho, moedas, cartola, lenço de pano e afins. O filho e ajudante de Camacho se colocou na platéia ao lado de Morfeu.
- A-há! Morfeu! Observe, observe com toda a atenção que Deus lhe deu! – incitou o ânimo do garoto o mágico retirando da caixa uma moeda. O poodle latiu e a moça medrosa o alentou.
O coração do garoto dava pulinhos, sua atenção era inteira de Camacho, os olhos bem vivos atentavam pra todos os gestos e trejeitos do mágico. Este com leveza segurava a prata com o indicador e polegar direitos e ela ardia a vista cintilando sob o sol das duas.
Em movimentos rápidos que assustavam Morfeu, Camacho passava com sem-par agilidade a prata duma pra outra mão, e no fim de meio minuto ou pouco menos o mágico mostrou ao garoto as palmas das mãos, vazias. Quão extasiado ficou Morfeu! Olhou a mão espalmada de Camacho e nada entendeu. Procurou no assoalho, mexeu no bolso do mágico e nada da moeda. Era mágica, na mais pura demonstração da arte da magia.
- A moeda desapareceu, Morfeu, mas não pense que ficarei sem ela, já que sem ela nada é meu ofício. - E num movimento brusco levou o dedo à boca como que pedindo silêncio – Ouve isso, Morfeu? Ouve isso? – E num gesto sutil tirou do ouvido do garoto a pratinha desaparecida.
Simplesmente Morfeu não creu nos olhos, testemunhas daquilo tudo. Era incrível! Era realmente mágica! Já vira na televisão certa vez um mágico, uma outra vez viu um de longe no circo que seus amigos disseram não passar de um fazedor de truques manjados. Mas naquele instante não havia quem desviasse sua atenção, não havia truques, tampouco televisão que defasasse sua razão. Era pura magia o que via à frente.
A moça medrosa se impacientava e apressava o garoto Morfeu que nem bola deu e pediu um novo número.
- Preste muita atenção, garoto Morfeu –da caixa Camacho tirou a cartola –. Esse número é o meu maior, mas é bem ligeiro e não vai tomar o tempo rico de sua mãe.
O mágico mostrou a cartola a todos, inclusive ao poodle que não se privou de comprovar a oquidão do chapéu.
- Nada há e não há nada dentro, Morfeu.
O filho-ajudante de Camacho aparentava mais frenético que o próprio Morfeu e saltitava de um lado ao outro do “palco”, coçando os dedos e com as pernas irrequietas dizendo de segundo em segundo o seguinte:
- Morfeu, Morfeu, não tire os olhos da cartola Morfeu. Não olhe pra mim, mas pra cartola, Morfeu.
O garotinho então mantinha os olhos vivazes voltados pras expressões e pros gestos de Camacho, tanto por causa do apelo do filho-ajudante quanto pela sua curiosidade que era imensa, beirando o anormal.
Camacho ergueu bem alto a sua cartola de palha envolta em feltro. Bem o alto os olhos do garoto miraram. Camacho então desceu o chapéu à altura do peito e pôs-se a rondar magistralmente a mão e os dedos sobre seu instrumento mágico, dizendo cochichos surdos, olhos cerrados com pálpebras intermitentes. Até que “Há!”, gritou de inopino Camacho assustando o menino Morfeu. O mágico meteu seu braço até o fundo da cartola e eis que de lá é tirado um dengoso e felpudo coelhinho perdido em seus brancos cabelos, olhando medroso o mundo através de seus olhos vermelhos e cheirando a cidade com seu nariz cor-de-rosa.
O ajudante aplaudiu e gritou “bravo!”. O poodle enervou-se com a presença do coelho. A moça catava na bolsa moedinhas pra demonstrar sua caridade enquanto resmungava cobras e lagartos. O garoto Morfeu apenas manteve-se estático, inteiramente tomado por uma surpresa absurda e completamente realizado e feliz, pois até àquela altura parecia que magia não existia. Mas agora sabia, cria naquilo que seu olho via. Queria crer, por sinal.
- Obrigada moço – disse a moça ao velho mágico, e despejou na cartola alguns tantos tostões. – Vamos indo Morfeu, que esse povo é perigoso.
Ainda uma vez mais os olhos de Morfeu brilharam pro mágico e este lhe disse com graça e cortesia:
- Deus lhe pague, meu filho.
E após Morfeu, sua mãe e o poodle darem as costas, ao seu filho falou:
- Ele nunca mais vai ver outro número de mágica, filho.
